Muitos pacientes chegam ao meu consultório, em Brasília, com uma dúvida angustiante após o diagnóstico: “Doutor, o que acontece se eu não tratar o câncer de próstata agora?”. A resposta não é única e depende diretamente da história natural do tumor, ou seja, de como aquelas células específicas costumam se comportar ao longo do tempo. Nem todo tumor significa metástase ou morte imediata, mas a avaliação correta da agressividade é o que define a segurança do paciente.
Vigilância ativa: quando o acompanhamento é a melhor escolha
Atualmente, existe uma estratégia chamada vigilância ativa. Ela é indicada para homens com tumores de baixa agressividade, geralmente com PSA abaixo de 10 ng/ml, classificação Grau 1 (Gleason 3+3) e tumor localizado dentro da próstata, de acordo com exames de imagem. Nesses casos, em vez de partirmos para a cirurgia ou radioterapia, realizamos uma observação vigilante e rigorosa para preservar a qualidade de vida do paciente, intervindo apenas se houver sinais de mudança no comportamento do tumor.
Entenda a escala de Gleason (grau de agressividade)
Para decidir se um tumor pode ser apenas acompanhado, usamos a escala de Gleason. Imagine que ela avalia o “desarranjo” das células:
• Baixa agressividade (Grau 1 – Gleason 3+3): as células são muito parecidas com as normais e crescem lentamente.
• Agressividade intermediária (Graus 2 e 3 – Gleason 3+4 ou 4+3): exige maior atenção e, frequentemente, tratamento ativo.
• Alta agressividade (Graus 4 e 5 – Gleason 8, 9 ou 10): as células estão muito alteradas e têm grande capacidade de se espalhar rapidamente.
O que os estudos mostram sobre não tratar o tumor?
Uma revisão sistemática recente analisou mais de 43 mil homens acompanhados por até 30 anos para entender a evolução da doença não tratada:
• Tumores de baixa agressividade (Grau 1): mais de 95% dos pacientes estavam vivos após 10 anos. O risco de metástase, isto é, quando o câncer se espalha, foi inferior a 5% em 15 anos de acompanhamento.
• Tumores de alta agressividade (Graus 4 e 5): o cenário muda drasticamente. Menos de 60% continuavam vivos após 10 anos, e mais da metade dos pacientes com tumores grau 8 a 10 faleceram em apenas 5 anos por causa do câncer, quando não tratados.
Conclusão: a decisão depende de um diagnóstico preciso
Se o câncer de próstata não for tratado, o desfecho depende totalmente do grau da doença. Enquanto tumores de baixa agressividade permitem a vigilância ativa com segurança, os tumores agressivos exigem tratamento imediato e contundente para evitar a evolução rápida da doença e o óbito.
A decisão de tratar ou acompanhar deve ser tomada com base em exames precisos e em uma conversa clara com seu urologista.
Dr. João Ricardo | Urologista em Brasília
Especialista em Cirurgia Robótica e Urologia Oncológica
CV: https://lattes.cnpq.br/9685430182837893