Durante muitos anos, homens com mais de 75 anos raramente eram considerados candidatos à cirurgia para o tratamento do câncer de próstata. A justificativa era simples: acreditava-se que os riscos da operação superavam seus benefícios.
Felizmente, essa visão vem mudando.
Hoje sabemos que a idade cronológica, isoladamente, não deve determinar quem pode ou não realizar uma prostatectomia radical, especialmente quando falamos da cirurgia robótica. O que realmente importa é a condição clínica do paciente, sua expectativa de vida, a agressividade do tumor e seus objetivos de tratamento.
O envelhecimento mudou e a medicina também
Há algumas décadas, um homem de 80 anos frequentemente apresentava múltiplas limitações físicas e doenças que aumentavam significativamente o risco cirúrgico.
Atualmente, esse cenário é diferente.
É cada vez mais comum encontrar pacientes com mais de 75 ou 80 anos que são independentes, fisicamente ativos, praticam exercícios regularmente e possuem excelente qualidade de vida. Para esses homens, um câncer de próstata localizado e potencialmente curável merece uma avaliação individualizada.
A pergunta deixou de ser “quantos anos o paciente tem?” para se tornar “esse paciente pode se beneficiar do tratamento?
O que dizem os estudos mais recentes?
Uma análise norte-americana envolvendo 48.485 pacientes submetidos à prostatectomia minimamente invasiva avaliou especificamente homens com 75 anos ou mais.
Os pesquisadores observaram que os pacientes mais idosos apresentaram taxas discretamente maiores de complicações, readmissão hospitalar e mortalidade nos primeiros 30 dias após a cirurgia. A chance de readmissão foi aproximadamente 58% maior em comparação aos pacientes mais jovens.
Apesar disso, a conclusão dos autores foi clara: os resultados permaneceram dentro de uma faixa considerada aceitável para pacientes cuidadosamente selecionados. A recomendação foi que a idade, isoladamente, não seja utilizada como critério para excluir um homem da cirurgia.
Outro estudo avaliou 439 pacientes submetidos à cirurgia robótica, divididos em diferentes faixas etárias. O tempo de cirurgia, a perda sanguínea, as complicações e o controle do câncer foram semelhantes entre os grupos.
Mesmo nos pacientes acima de 70 anos, a recuperação da continência urinária apresentou resultados bastante satisfatórios. Um ano após a cirurgia, aproximadamente 78% dos pacientes mais idosos estavam continentes, índice apenas discretamente inferior ao observado nos pacientes mais jovens.
Esses dados reforçam que bons resultados funcionais também podem ser alcançados na população idosa.
E os pacientes acima dos 80 anos?
Talvez essa seja a maior novidade.
Um estudo multicêntrico recente acompanhou homens com idade média de 82,6 anos submetidos à prostatectomia robótica.
Embora a maioria apresentasse tumores de alto risco, a cirurgia foi realizada com baixa taxa de complicações importantes. Após um ano, cerca de 70% dos pacientes utilizavam nenhum ou apenas um absorvente de segurança , demonstrando recuperação funcional considerada bastante favorável para essa faixa etária.
É importante destacar que esses pacientes foram cuidadosamente selecionados e operados por equipes experientes em centros especializados.
Isso significa que os resultados não devem ser generalizados para todos os homens acima de 80 anos, mas demonstram que a cirurgia pode ser uma alternativa viável em casos bem indicados.
A idade é apenas uma parte da decisão
Quando um homem recebe o diagnóstico de câncer de próstata, diversos fatores precisam ser analisados antes de definir o melhor tratamento.
Entre eles estão:
- idade biológica e estado geral de saúde;
- presença de outras doenças, como diabetes ou doenças cardiovasculares;
- grau de independência para as atividades do dia a dia;
- expectativa de vida;
- características do tumor;
- exames de imagem;
- preferência do paciente após compreender riscos e benefícios de cada opção.
Em muitos casos, um homem de 78 anos pode apresentar melhores condições para uma cirurgia do que outro paciente de 68 anos com múltiplas doenças e importante fragilidade clínica.
Qual o papel da cirurgia robótica?
A cirurgia robótica representa um importante avanço no tratamento do câncer de próstata.
A tecnologia permite movimentos extremamente precisos, visão ampliada em alta definição e maior delicadeza na dissecção dos tecidos, fatores que podem contribuir para menor perda sanguínea, recuperação mais rápida e melhores resultados funcionais quando a indicação é adequada.
Entretanto, é importante esclarecer que o robô não elimina os riscos inerentes à cirurgia. A experiência da equipe, a seleção criteriosa do paciente e um planejamento individualizado continuam sendo os principais determinantes dos resultados.
Minha mensagem aos pacientes No consultório, costumo dizer que não operamos uma idade. Operamos uma pessoa. Cada paciente possui uma história, um nível de saúde, um tipo de câncer e objetivos próprios. É exatamente essa avaliação individualizada que permite oferecer o tratamento mais adequado, evitando tanto cirurgias desnecessárias quanto a perda da oportunidade de tratar um câncer potencialmente curável.
Se você tem mais de 75 anos e recebeu o diagnóstico de câncer de próstata, não assuma que a cirurgia está descartada apenas por causa da sua idade.
Converse com um urologista experiente em câncer de próstata e cirurgia robótica.
Após uma avaliação completa, será possível discutir todas as opções disponíveis e escolher, de forma compartilhada, a estratégia que oferece o melhor equilíbrio entre segurança, qualidade de vida e controle da doença.