Receber o diagnóstico de câncer de próstata desperta muitas dúvidas. Entre elas, uma das mais frequentes no consultório é:
“Doutor, vou voltar a ter ereções depois da cirurgia?”
Essa preocupação é absolutamente compreensível.
A função sexual faz parte da qualidade de vida, e preservar esse aspecto é um dos principais objetivos da cirurgia robótica moderna. Felizmente, os avanços tecnológicos e o conhecimento sobre reabilitação peniana permitem oferecer perspectivas muito melhores do que há alguns anos.
A cirurgia robótica ajuda a preservar a ereção?
Sim.
Sempre que o câncer permite, durante a prostatectomia radical robótica procuramos preservar os feixes vásculo-nervosos responsáveis pelo mecanismo da ereção.
A visão ampliada e a precisão da plataforma robótica favorecem uma dissecção mais delicada desses nervos, aumentando as chances de recuperação funcional.
Entretanto, mesmo quando a preservação é tecnicamente possível, isso não significa que a ereção retornará imediatamente.
Na maioria dos pacientes existe um período de recuperação dos nervos que pode durar vários meses.
Por que a ereção demora para voltar?
Após a cirurgia, os nervos responsáveis pela ereção sofrem um processo chamado neuropraxia.
Apesar de permanecerem íntegros, eles ficam temporariamente “adormecidos” devido ao trauma cirúrgico e ao processo inflamatório natural da cicatrização.
Durante esse período, ocorre redução das ereções espontâneas.
Essa falta de oxigenação adequada dos corpos cavernosos pode favorecer alterações estruturais importantes, como:
- diminuição da oxigenação dos tecidos;
- substituição progressiva da musculatura por fibras de colágeno;
- fibrose dos corpos cavernosos;
- perda da elasticidade necessária para uma ereção de boa qualidade.
Por isso, atualmente entendemos que a recuperação da função erétil começa logo após a cirurgia, e não apenas quando o paciente deseja voltar à atividade sexual.
Quais fatores influenciam a recuperação?
A recuperação da potência sexual varia bastante entre os pacientes.
Na literatura médica, as taxas de recuperação podem variar aproximadamente entre 50% e 90%, dependendo principalmente das características de cada homem e da definição utilizada pelos estudos.
Os principais fatores associados a melhores resultados são:
- idade mais jovem;
- boa função erétil antes da cirurgia;
- preservação bilateral dos feixes vásculo-nervosos;
- ausência de diabetes;
- bom controle do colesterol e das doenças cardiovasculares;
- não fumar;
- realização de um programa estruturado de reabilitação peniana.
Em outras palavras, a cirurgia é apenas uma parte do tratamento. O período pós-operatório também exerce grande influência no resultado final.
O que é a reabilitação peniana?
A reabilitação peniana consiste em um conjunto de estratégias destinadas a manter o fluxo sanguíneo para os corpos cavernosos enquanto os nervos se recuperam.
O objetivo não é apenas favorecer as ereções, mas preservar a saúde do tecido erétil durante esse período de recuperação, impedindo a fibrose.
Quanto melhor preservado estiver esse tecido, maiores tendem a ser as chances de recuperação funcional.
Como é feito o tratamento?
O programa é individualizado, mas geralmente envolve uma combinação de diferentes abordagens.
1. Medicamentos orais
Os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), como tadalafila e sildenafila, costumam ser a primeira etapa da reabilitação.
Esses medicamentos aumentam o fluxo sanguíneo para os corpos cavernosos e ajudam a manter o tecido peniano oxigenado.
Diversos estudos sugerem que o início precoce da terapia, mesmo antes da cirurgia, pode favorecer a recuperação funcional melhor do que esperar alguns meses. Embora ainda exista discussão científica sobre qual seja o melhor protocolo o uso diário mostrou-se melhor que o uso quando necessário na recuperação.
Por isso, na prática clínica, muitos especialistas optam por iniciar esse tratamento logo nas primeiras semanas após a cirurgia, quando não há contraindicações.
2. Terapia por injeção intracavernosa
Quando os comprimidos não proporcionam resposta satisfatória, podemos utilizar medicamentos aplicados diretamente nos corpos cavernosos.
Esses medicamentos promovem ereções de maneira bastante eficaz e permitem manter uma boa oxigenação do tecido peniano durante a fase de recuperação nervosa, permitindo também que o paciente tenha atividade sexual.
Apesar dos excelentes resultados, alguns pacientes apresentam receio da aplicação ou dificuldade técnica para realizar o procedimento.
Com treinamento adequado, entretanto, a maioria consegue utilizar essa modalidade com segurança.
3. Dispositivo de ereção a vácuo
Outra alternativa é o dispositivo de vácuo.
Ele promove a entrada de sangue no pênis por meio de pressão negativa, contribuindo para preservar a oxigenação dos corpos cavernosos.
Embora seja uma ferramenta útil para muitos pacientes, sua aceitação varia, principalmente devido ao desconforto ou à adaptação ao equipamento.
Quanto tempo leva para recuperar a ereção?
Essa é uma das perguntas mais comuns.
A recuperação é gradual.
Alguns homens observam melhora nos primeiros meses, enquanto outros continuam evoluindo durante 18 a 24 meses após a cirurgia.
Por isso, é fundamental ter paciência e manter o acompanhamento durante todo esse período.
A recuperação dos nervos é lenta, e interromper precocemente a reabilitação pode reduzir as oportunidades de melhora.
O papel da cirurgia robótica
É importante destacar que a cirurgia robótica representa um dos maiores avanços no tratamento do câncer de próstata.
Além do excelente controle oncológico, sua precisão permite maior preservação das estruturas responsáveis pela continência urinária e pela função sexual quando isso é oncologicamente seguro.
Entretanto, nenhum equipamento substitui a experiência do cirurgião, o planejamento individualizado e um programa adequado de recuperação no pós-operatório.
Minha orientação aos pacientes
Sempre explico aos meus pacientes que o sucesso da cirurgia não é medido apenas pela retirada completa do câncer.
Também buscamos preservar qualidade de vida.
A recuperação da função erétil faz parte desse objetivo.
Por isso, conversamos sobre esse tema antes mesmo da cirurgia e iniciamos um plano individualizado de reabilitação quando indicado.
Cada paciente possui características diferentes, e o tratamento deve ser adaptado às suas necessidades, expectativas e condições clínicas.
Com acompanhamento especializado, intervenção precoce e participação ativa do paciente, é possível maximizar as chances de recuperar a função sexual e retomar uma vida plena após o tratamento do câncer de próstata.