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Câncer urológico no idoso: a idade, sozinha, não deve decidir o tratamento.

Quando um homem de 75, 80 anos ou até mais recebe o diagnóstico de um câncer de próstata, rim ou bexiga, uma das perguntas que vejo em meu consultório costuma ser:

“Na minha idade, ainda vale a pena tratar?”

A resposta não depende apenas da idade.

Os idosos são um grupo heterogêneo. Dois pacientes com 80 anos podem ser completamente diferentes. Um pode ser independente, ativo, com a parte cognitiva preservada e ter poucas doenças associadas. Outro, com a mesma idade, pode apresentar perda de força, dificuldade para realizar atividades do dia a dia, alterações cognitivas, múltiplas doenças e uso de vários medicamentos.

Por isso, cada vez mais a medicina tem deixado de olhar apenas para a idade cronológica e passado a considerar também a chamada idade fisiológica — ou seja, como aquele organismo realmente está envelhecendo.

Essa mudança é particularmente importante nos tumores urológicos, porque câncer de próstata, câncer de bexiga e câncer de rim são doenças muito frequentes justamente nas faixas etárias mais avançadas. Então uma avaliação muito importante é sobre a fragilidade.

Fragilidade não significa simplesmente “ser velho”.

Na medicina, esse conceito é utilizado para pessoas que têm menor capacidade de se recuperar de situações de estresse, como uma cirurgia, uma internação, quimioterapia ou outro tratamento contra o câncer. Ela pode envolver perda de peso, redução da força muscular, menor velocidade para caminhar, cansaço, baixa capacidade física e maior vulnerabilidade a complicações.

E isso tem consequências práticas.

Pacientes frágeis apresentam maior risco de complicações cirúrgicas, toxicidade relacionada aos tratamentos, hospitalizações e perda de independência. Por isso, identificar a fragilidade antes de definir o tratamento pode ser tão importante quanto avaliar o próprio tumor.

O primeiro é o subtratamento: deixar de oferecer um tratamento potencialmente curativo a uma pessoa saudável simplesmente porque ela tem 75 ou 80 anos.

O segundo é o excesso de tratamento: indicar uma cirurgia ou terapia agressiva para uma pessoa muito frágil, com poucas chances de obter benefício real daquele tratamento.

É justamente entre esses dois extremos que está a medicina personalizada para o paciente idoso.

Hoje existem instrumentos específicos para avaliar a fragilidade e realizar uma avaliação geriátrica mais ampla. E por isso, muitas vezes, é importante o trabalho conjunto do urologista com o geriatra.

Além das características do câncer, podemos considerar aspectos como capacidade de caminhar e realizar atividades cotidianas, força e mobilidade, estado nutricional, cognição, doenças associadas, quantidade de medicamentos utilizados, risco de quedas, apoio familiar e social e expectativa de vida.

O objetivo não é apenas dizer se alguém “pode ou não pode” receber determinado tratamento.

É descobrir como tornar esse tratamento mais seguro e adequado para aquela pessoa.

Fragilidade não significa necessariamente que nada possa ser feito

Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes.

Algumas vulnerabilidades encontradas antes do tratamento podem ser modificadas.

Um paciente com perda de força pode se beneficiar de fisioterapia e exercício físico supervisionado. Alterações nutricionais podem ser corrigidas. Medicamentos desnecessários podem ser revistos. Problemas de mobilidade, cognição ou suporte familiar podem ser identificados antecipadamente.

Em um importante estudo, pacientes com câncer com 70 anos ou mais que receberam intervenções orientadas por avaliação geriátrica apresentaram menos efeitos adversos graves relacionados ao tratamento, menos quedas e redução da quantidade de medicamentos.

Portanto, identificar fragilidade não significa necessariamente deixar de tratar.

Em alguns casos, significa preparar melhor o paciente para que ele possa ser tratado com mais segurança.

Essa avaliação é especialmente importante porque muitos tumores de próstata apresentam evolução lenta.

Em determinados pacientes idosos com tumores de baixo risco — e, em algumas circunstâncias, mesmo com tumores de maior risco quando a expectativa de vida é limitada — estratégias de vigilância podem ser mais adequadas do que tratamentos imediatos.

Por outro lado, um homem de 75 ou 80 anos saudável, independente e com boa expectativa de vida pode se beneficiar de tratamento curativo quando apresenta um câncer biologicamente significativo.

Novamente, a idade isoladamente não responde à pergunta.

Também precisamos considerar os efeitos dos tratamentos. A terapia de privação androgênica, por exemplo, pode provocar perda de massa muscular, redução da densidade óssea, fadiga, alterações metabólicas e declínio funcional — questões

particularmente relevantes no paciente idoso. Exercício físico estruturado é uma das estratégias com evidências para minimizar parte desses efeitos.

O mesmo raciocínio se aplica aos tumores renais.

Algumas pequenas massas renais apresentam crescimento lento e baixo potencial de disseminação. Em pacientes selecionados, principalmente quando existem outras doenças importantes ou maior fragilidade, a vigilância ativa pode evitar uma intervenção que talvez nunca trouxesse benefício significativo.

Quando o tratamento é necessário, podemos considerar alternativas que reduzam o impacto fisiológico, como cirurgia minimamente invasiva com preservação do rim ou, em determinados casos, técnicas de ablação.

O câncer de bexiga é particularmente relevante nessa discussão porque ocorre frequentemente em pacientes mais velhos, tabagistas, e pode exigir repetidos procedimentos, exames e tratamentos.

Em alguns pacientes, portanto, não basta perguntar se determinado tratamento é tecnicamente possível.

Precisamos perguntar também:

Qual será o impacto desse tratamento sobre a independência e a qualidade de vida dessa pessoa?

Nos casos mais complexos, como aqueles em que se considera uma cirurgia de grande porte, a avaliação de mobilidade, nutrição, cognição, polifarmácia e suporte familiar pode ajudar tanto na seleção do tratamento quanto na preparação do paciente.

Esse é outro ponto que merece atenção.

Curar ou controlar o câncer é fundamental. Mas, à medida que envelhecemos, outros desfechos passam a ter enorme importância.

Para muitos pacientes, continuar caminhando, morar em sua própria casa, preservar a memória, manter autonomia e depender o mínimo possível de outras pessoas são objetivos tão importantes quanto aumentar a sobrevida.

Em um estudo citado no artigo, mais de 80% dos idosos avaliados desejavam preservar sua capacidade cognitiva pelo maior tempo possível, e 53,4% priorizavam qualidade de vida em relação ao prolongamento da vida.

“Qual é o melhor tratamento para este câncer?”

Talvez uma pergunta ainda melhor seja:

“Qual é o melhor tratamento para este câncer, nesta pessoa, neste momento da vida?”

Tratar o paciente, e não apenas a idade

A população está envelhecendo e, consequentemente, veremos cada vez mais homens idosos com câncer de próstata, rim e bexiga.

A boa notícia é que também temos tratamentos cada vez menos invasivos e melhores ferramentas para selecionar quem realmente se beneficia de cada abordagem.

O caminho parece ser cada vez mais individualizado: avaliar o tumor, mas também avaliar a pessoa.

Idade cronológica, isoladamente, não deveria ser motivo nem para negar um tratamento potencialmente curativo, nem para indicar um tratamento agressivo sem considerar seus possíveis impactos.

O objetivo deve ser encontrar o equilíbrio entre controle do câncer, segurança, qualidade de vida e preservação da independência.

Esse é um dos princípios mais importantes da urologia voltada ao paciente idoso.

Texto baseado no artigo “Beyond Chronologic Age: Frailty, Geriatric Assessment, and Personalized Care for Older Adults With Genitourinary Cancer”, publicado no ASCO Educational Book em 2026.